Antes do Plugin, antes do Microfone: Invista em VOCÊ
- Eduardo

- há 6 dias
- 8 min de leitura

Se você chegou aqui porque comprou um microfone caro, baixou o plugin “milagroso” e ainda assim seu áudio não soa como o dos caras que você admira... respire. Você não está sozinho. Na verdade, está exatamente onde 90% das pessoas começam — e isso não é um defeito, é só o começo!
Existe uma ilusão muito bem vendida por aí: a de que a próxima peça de equipamento vai resolver tudo. Que, se você tiver aquele microfone de R$ 3.000, a voz fica presente com graves encorpados e agudos cristalinos; aquela interface de som com a conversão AD/DA top de linha vai deixar seu som profissional; ou aquele plugin que remove todos os defeitos da sua gravação ou deixa sua voz aveludada; aquele compressor TDX-alfa-bravo que vai fazer tal e tal milagre e sua voz vai, de repente, soar como a do locutor da Netflix, do podcast que viralizou ou do youtuber com 2 milhões de inscritos. Para seu consolo, isso não acontece apenas com você que quer ser locutor, de jeito nenhum! Acontece com o entusiasta que quer entrar no mercado da mixagem de músicas e há toneladas de plugins que prometem fazer maravilhas na sua mixagem e aí aparecem engenheiros famosos, que mixaram vários prêmios Grammy e que são endossados por tal marca e que mostram o antes e depois do uso de um plugin, tudo bem que em uma condição bem específica, mas que funciona que é uma maravilha e você se convence que precisa daquilo imediatamente. Isso também acontece com o fotógrafo iniciante que acredita que suas fotos ficarão melhores apenas se ele tiver a máquina top de linha da marca “X” ou o guitarrista iniciante que só vai conseguir tocar os solos igual ao Yngwie Malmsteen se ele tiver uma Fender e, finalmente, caso você ainda não esteja convencido, vou chutar o balde agora, mas você só vai cozinhar como um chef com aquele jogo de facas e panelas importado e só vai dirigir bem se tiver aquele carrão na garagem!! Ufa!!

Mas a verdade é outra: nenhum “equipamento” corrige o que não foi bem feito desde o começo! É a mais pura e simples verdade.
A armadilha do “equipamento mágico”
Saiba que: equipamento importa — mas só depois de você dominar o básico.
Pense assim:
Um violão de R$ 200 nas mãos de Tom Jobim soaria melhor do que um Taylor nas mãos de alguém que mal sabe afina-lo.
Uma foto tirada pela Annie Leibovitz de seu celular parecerá muito mais profissional e de cair o queixo do que um amador com a melhor máquina do mundo, que não tem ideia de para que serve metade dos botões.
A gravação feita por um locutor profissional em um celular soará muito mais presente e emocionante que o iniciante com um U87 falando de seu guarda-roupas.
E os exemplos não param por aí, porque o raciocínio continua o mesmo, pois você sabe que pode comer o melhor arroz branco do mundo feito por um chef em uma panela velha e desgastada usando uma colher de pau e que não vai chegar aos pés de um risoto feito por qualquer um em uma panela de cobre importada da Letônia.
Entendeu?!
A ferramenta potencializa, mas não substitui a técnica. E como eu adorei esses contraexemplos aqui vai mais um. É como se você tivesse uma letra feia, um garrancho como se falava antigamente e só de pegar uma Montblanc, sua letra vai ficar linda de uma hora pra outra? Peguei pesado nessa né?
Eu vou mais além caso você ainda desconfie, apesar dos exemplos de apelão que usei até aqui, mas ouso dizer que quanto mais avançado for o recurso que tiver à disposição, melhor terá que ser sua habilidade para utilizá-lo para não prejudicar o resultado ou mesmo subutilizar essa ferramenta. Deixa eu te explicar isso melhor pra ficar bem claro: Se você ganhar um Neumann U87, um mic que custa quase R$ 40.000,00 e é considerado uma referência e sonho de muitos locutores. A sensibilidade dele é enorme e se você não tiver um ambiente bem isolado e tratado acusticamente e uma boa técnica vocal, ele vai captar todos os ruídos do seu ambiente, boca, corpo, até estômago e você vai gravar uma péssima leitura de um texto, mas com um som super nítido. Uma câmera fotográfica super top vai ter controles e menus que você não terá a mínima ideia de para que servem, pois a sua experiência o leva a dúvidas muito mais básicas e portanto seu equipamento também será subutilizado e talvez gerando uma foto com qualidade até inferior á de um celular. Um plugin de áudio que custa mais de $200 pode arruinar o seu áudio porque você não soube utiliza-lo na medida certa, talvez pesando demais na mão.
Portanto, o mesmo acaba valendo pra tudo:
Antes de pensar em equalizar, você precisa saber como falar. Antes de pensar em compressão, você precisa entender como respirar, modular, pausar e emendar frases com naturalidade e dar a entonação certa para aquela passagem do texto.
Antes de escolher a câmera, precisa entender a relação entre ISSO, abertura e velocidade; como a luz trabalha e enquadramento.
Antes de comprar o Tênis de mais de R$2000, você precisa saber como correr usando seu corpo pra te ajudar.
O que ninguém mostra nos reviews
Quando você assiste a um review de microfone ou um tutorial de “mixagem profissional”, por exemplo, raramente o cara mostra o que ele fez antes de apertar o REC:
Ele aqueceu a voz?
Ele treinou a dicção nos últimos meses?
Ele editou a leitura mentalmente antes de gravar?
Ele gravou 5, 10, 15 takes até acertar o tom?
Ele sabe ouvir criticamente o próprio áudio?
Quantos anos de experiência ele tem até chegar onde está?
Por quantos treinamentos ele passou?
Quais as referências que ele tem ouvido e buscado aprimorar a própria técnica?
Essas coisas não são vendidas em lojas, mas são as verdadeiras “melhorias” que fazem a diferença entre um áudio bom e um áudio inesquecível. E o melhor: você encontra muitas dicas gratuitas na internet além de cursos pagos para os mais diferentes gostos e bolsos.
Invista em você, pois ao final do trajeto, custará menos que investir em muitos equipamentos — e rende mais!
Em vez de gastar R$ 800 em um plugin de voz “AI-enhanced”, que tal:
Gravar todos os dias por 5 minutos e ouvir com atenção
Aprender a editar em uma DAW
Perder a vergonha de ouvir sua própria voz e começar a treinar seu ouvido crítico, mas técnico?
Ler em voz alta textos de autores com ritmo marcante (Machado de Assis, Clarice Lispector, Drummond)
Assistir a vídeos de fonoaudiólogos sobre respiração diafragmática
Pedir feedback real de alguém que entende - não só “ficou bom!”?
Esses hábitos, feitos com consistência, transformam seu áudio muito mais do que qualquer equalização milagrosa. Eles mudam a fonte do som, não só o retoque final.
E quanto aos cursos, eles são importante, mas não caia no conto do vigário de quem promete que gravando com o seu celular e com a técnica ensinada no curso, você começará a ganhar R$10mil por mês. Lembre-se que quem promete muito, entrega pouco. Procure referências, converse com quem já fez, avalie opções, assista vídeos dessas pessoas, etc.
Mas e o equipamento?
Claro, equipamento importa — só não é o primeiro passo.
Você não precisa de um microfone de estúdio para começar, um USB razoável e um computador são suficientes, mas precisa de um ambiente controlado:
Grave em um closet ou parte do armário com roupas, cortinas ou carpete (absorve a reverberação excessiva).
Fique a um palmo (aberto) de distância do microfone (não grude, não fique longe).
Desligue o ar-condicionado, o ventilador, o WhatsApp notificando a todo instante.
Se o computador fica com a ventoinha ligada o tempo todo, mantenha-o distante, fora do alcance do microfone.
Ainda assim o ruído externo vindo da janela ou do vizinho incomoda, então escolha um horário melhor para a gravação.
Procure trabalhar a geração de ruídos de gravação gerados por você mesmo
Essas escolhas simples valem mais do que um microfone caro em um banheiro cheio de reverberação.
Passar um perrengue no começo faz parte do aprendizado até pra você ter certeza de que aquilo é o que deseja realmente fazer!! Sim, é verdade! Conheço pessoas que começaram na área porque falaram pra ela que tinha a voz bonita, mas, em primeiro lugar, já se foi a época de locutor que tem que ter voz bonita, hoje se busca muito mais a naturalidade, depois a pessoa percebe que não tem jeito pra aquilo, não gosta de editar, não suporta se ouvir, e aí você já sabe... fazer uma atividade que requer entrega e emoção focando apenas no lado financeiro... É, não vai dar certo!
Depois, sim: invista em um microfone condensador decente, não vou citar marcas para não gerar discussão; um suporte antivibração e um pop filter (caseiro mesmo); uma interface decente de um ou dois canais – Investimentos que não são tão altos assim e se bem feitos, duram a vida inteira, ou até que a atualização do seu IOS o force a trocar de equipamento!
Mas lembre-se: o microfone só captura o que você entrega.
Falando sobre isso, eu me recordo de quando tive uma conversa muito produtiva com um colega, um dia desses, falando sobre essa questão de equipamento. Falávamos da condição, muito comum, pela qual alguns profissionais passam quando são solicitados para gravar quando estão em trânsito. Em geral, o kit que utilizam é um microfone Apogee, que é pequeno e de boa qualidade, o celular, um bom cabo, um fone de ouvido e o banco traseiro do carro estacionado em um local silencioso. Essas pessoas gravam, fazem uma edição básica tirando algum erro grosseiro e entregam sem aplicação de nenhum plugin e o material é aceito sem problemas e não é que é aceito com o condicional de que “quando você chegar no estúdio, você pode gravar pra valer pra gente?”, não isso não acontece, o que foi gravado no carro vai ser editado e vai ao ar e pronto! Ou seja, é a situação mais precária, mas possível de se gravar para um profissional. Partindo-se daí, porque então eu preciso de um TLM 103, uma interface RME, um iMac, cabos Mogami e um fone Beyerdynamic PRO? Você responderia – “Ah, porque a qualidade vai ficar melhor” Sim, não tenho dúvida nenhuma, mas a entrega feita com o celular já atende ao requisito super exigente de uma produtora para lançar um comercial na TV, então qual o outro argumento? Há questões a discutir como o fato de alguns estúdios exigirem o microfone A ou B para gravações fora de seus estúdios; de fazerem uma avaliação de ruído de seu estúdio antes de aprovar seu material; tem o fato de que um TLM impressiona e traz consigo um ar de "profissionalismo" implícito, etc, etc, mas nem todos são assim.
Entendeu?!
Conclusão: o melhor recurso em que você pode investir é: conhecimento e prática!
Se você levar uma coisa só daqui, que seja esta:
Antes de gastar com ferramentas, invista em você: em ouvir, falar, errar, ajustar e repetir. Você vai chegar em um estágio em que saberá muito bem onde e quanto precisa investir para atingir o próximo estágio em seu negócio.
O mundo está cheio de gravações tecnicamente perfeitas que soam vazias. E cheio de gravações simples que emocionam, porque têm presença, intenção e humanidade.
Seu ouvinte não sabe (nem liga) se você usou um plugin de R$ 500 ou mic de R$3000, mas ele sente se você está presente, se está confiante, se está falando com ele, e não para ele.
Então, antes do próximo upgrade de hardware ou software, faça um upgrade de si mesmo:
Treine seu ouvido.
Refine sua leitura.
Trabalhe sua postura.
Aprenda a ouvir seu próprio áudio sem julgamento, mas com curiosidade.
O resto — microfones, interfaces, plugins — vai fazer sentido só depois. E, quando fizer, você vai usá-los com sabedoria, não como muleta. Porque no fim das contas, o melhor equipamento que você tem... é você.
Agora vamos gravar algo muito legal!!





Comentários